Perto do coração selvagem

“O que seria então aquela sensação de força contida, pronta para rebentar em violência, aquela sede de empregá-la de olhos fechados, inteira, com a segurança irrefletida de uma fera? Não era no mal apenas que alguém podia respirar sem medo, aceitando o ar e os pulmões? Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências de egoísmo e vitalidade.”

LISPECTOR, Clarice. Perto do coração selvagem. São Paulo: Círculo do Livro, 1989. p.14

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O Macaco e a Essência

“Do café da manhã à hora de deitar, podemos estar fazendo tudo ao nosso alcance para ultrajar a Natureza e negar o fato da nossa Essência Vítrea. Mas mesmo o mais enfurecido dos macacos cansa-se das suas cabriolas e tem de dormir. E enquanto dorme, a Compaixão que nêle mora preserva-o, à sua revelia, do suicídio que, durante as horas despertas, com ânsia tão frenética êle tentou cometer. Depois o sol nasce outra vez, e o nosso macaco acorda uma vez mais para o seu próprio eu e para a liberdade do seu arbítrio pessoal – para mais outro dia de tropelias, ou, se êle o prefere, para os primórdios do autoconhecimento, para os primeiros passos no sentido da sua libertação.”

HUXLEY, Aldous. O Macaco e a Essência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. p.106

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Tio Spencer

“Além do orgulho, eu era movido por aquela estranha e inominável perversidade, que muitas vêzes no faz insistir em fazer o que não queremos fazer (…) ou nos leva a recusar obstinadamente fazer o que apaixonadamente desejamos, apenas porque a oportunidades de fazê-lo não se apresentou exatamente da maneira como prevíamos ou porque a pessoa que se ofereceu para satisfazer nossos desejos não insistiu suficientemente em seus oferecimentos.”

HUXLEY, Aldous. Tio Spencer In: Chapéu Mexicano. São Paulo: IBRASA, 1967. p.41

“Pensou em  amigos, incompreensíveis uns para os outros e opacos depois de uma vida inteira de companheirismo. Pensou em amantes distanciados quando estão uns nos braços dos outro. E a desesperação de sua paixão revelou-se a êle – a desesperança de tôda paixão, pois tôda paixão pretende atingir aquilo que, na natureza das coisas é inatingível: a fusão e interpenetração de duas vidas, de duas histórias separadas, duas individualidades solitarias e para sempre desunidas.”
“Contudo, a inatingibilidade de uma coisa nunca é razão para deixar de desejá-la. Pelo contrário, tende a aumentar e mesmo criar desejo.”

HUXLEY, Aldous. Tio Spencer In: Chapéu Mexicano. São Paulo: IBRASA, 1967. p.67

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Minhas Universidades

“Havia já muito tempo sentia eu a necessidade premente de compreender como nascera o mundo em que eu vivia e de que forma eu o percebia
Sem que eu desse conta, esse desejo, no fundo tão modesto e natural converteu-se em mim em verdadeira obcecação e, com a energia da mocidade, comecei a indagar as pessoas minhas conhecidas com “perguntas infantis”.”

 GORKI, Maxim. As minhas universidades.Brasil: Hemus, 2008. p.156

 

“Fiquei só, na cabeça, um caos inquieto, na alma, a revolta; alguns dias mais tarde, senti que o meu cérebro se fundia e em ebulição engendrava estranhos pensamentos, visões, quadros fantásticos. Um sentimento de angústia apoderou-se de mim e comecei a recear a loucura. Contudo era corajoso e decidi explorar o meu mêdo até o fim, e foi isto, certamente, o que me salvou.”

GORKI, Maxim. As minhas universidades.Brasil: Hemus, 2008. p.161
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Minhas Universidades

“E aqueles homens pesadões, preguiçosos, encharcados, puseram-se a “mostrar como se trabalha”. Como na abordagem, dirigiram-se para a ponte e para os porões da lancha avariada, com rugidos, gritos e zombarias. Sacos de arroz, fardos de passas de uva, pacotes de peles e de caracol, voavam à minha volta com a leveza de almofadas de plumas; vultos atarracados corriam, encorajando-se uns aos outros com uivos, assobios e pragas. Custava a crer que aqueles homens, que trabalhavam tão facilmente, tão alegremente, animados, eram os mesmos seres pesados e tristes que, momentos antes, se lastimavam amargamente da vida, da chuva e do vento. A chuva levantava as camisas, erguendo as fraldas ao nível da cabeça, desnudando os ventres. Na escuridão úmida, à luz frouxa de seis lanternas, vultos negros de homens, afincavam-se no trabalho, num bater surdo dos pés contra as pontes das lanchas grandes. Trabalhavam como se estivessem esfomeados de trabalho e esperassem desde há muito o prazer de atirar sacos de mil libras de peso e de correr com fardos às costas. Trabalhavam, zombando uns dos outros, com o entusiasmo altissonante das crianças, e aquela alegria inebriante da ação que só os beijos de uma mulher podem sobrepujar em doçura […]
Passei essa noite mergulhado numa satisfação íntima e intensa que nunca havia experimentado antes; o desejo de passar toda a minha vida nesse êxtase quase louco de ação, iluminava minha alma. Para lá dos bordos das lanchas, as vagas dançavam, a chuva fustigava as pontes, o vento assobiava sobre o rio e, na bruma parda da madrugada, os homens molhados e meio nus, corriam infatigáveis e rápidos, gritavam e riam, orgulhosos de sua força e de sua obra. Eis que o vento rasgou a massa pesada das nuvens e no azul esplendoroso do céu brilhou a luz rosada do sol. Os animais, jubilosos, acolheram-na com um único grito, sacudindo os pêlos molhados dos seus peitos fortes. Aprazia abraçar e beijar aqueles animais de duas patas, tão inteligentes quão hábeis no trabalho, embriagados de labor, até o esquecimento de si próprios.
Parecia que nada poderia resistir ao impulso daquela força alegremente desencadeada, que ele seria capaz de produzir milagres, de cobrir, numa só noite, toda a terra com belos palácios e cidades, como dizem os contos proféticos. Após ter contemplado, durante um ou dois minutos o trabalho dos homens, o raio de sol, impotente para vencer a massa densa das nuvens afogou-se nela como uma criança no mar, enquanto a chuva se transformava em bátegas furiosas. […]
Até as duas horas da tarde, até que todas a carga tivesse sido posta a salvo, os homens meio nus trabalharam sem descanso sob o temporal e o vento cortante; então, cheio de veneração, compreendi de que forças heróicas era feita a terra dos homens.”

GORKI, Maxim. As minhas universidades. Brasil: Hemus, 2008. p. 21-22

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Memórias do Subsolo

“Não consegui chegar a nada, nem mesmo tornar-me mau: nem bom nem canalha nem honrado nem herói nem inseto. Agora, vou vivendo os meus dias em meu canto,incitando-me a mim mesmo com o consolo raivoso – que para nada serve – de que um homem inteligente não pode, a sério, tornar-se algo, e de que somente os imbecis o conseguem. Sim, um homem inteligente do século dezenove precisa e está moralmente obrigado a ser uma criatura eminentemente sem caráter; e uma pessoa de caráter,de ação, deve ser sobretudo limitada.”

DOSTOIÉVKI, Fiodor. Memórias dos subsolo. In: Memórias do Subsolo e outros escritos. São Paulo: Paulicéia, 1992 p. 66-67

“Vou explicar-vos: o prazer provinha justamente da consciência demasiado viva que eu tinha da minha própria degradação; vinha da sensação que experimentava de ter chegado ao derradeiro limite; de sentir que,embora isso seja ruim, não pode ser de outro modo; de que não há outra saída; de que a pessoa nunca mais será diferente, pois, ainda que nos sobrasse tempo e fé para isso, certamente não teríamos vontade de fazê-lo; e, mesmo que quiséssemos, nada faríamos neste sentido, mesmo porque em que nos transformaríamos? E o principal,  o fim derradeiro está em que tudo isto ocorre segundo leis normais e básicas da consciência hipertrofiada, de acordo com a inércia decorrência direta dessas leis, e, por conseguinte, não é o caso de se transformar; simplesmente não há nada a fazer.”

DOSTOIÉVKI, Fiodor. Memórias dos subsolo. In: Memórias do Subsolo e outros escritos. São Paulo: Paulicéia, 1992 p. 69-70

“Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranqüilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranqüilizarei? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los?Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar. E assim chegamos de novo às leis da natureza. E qual é, afinal, o resultado? Exatamente o mesmo.”

DOSTOIÉVKI, Fiodor. Memórias dos subsolo. In: Memórias do Subsolo e outros escritos. São Paulo: Paulicéia, 1992 p. 78

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O Castelo

“Abraçaram-se; o corpo ardeu sob as mãos de K.; ele sentiu como uma vertigem da qual tentou salvar-se, porém inutilmente; rolaram alguns passos,golpeando surdamente contra a porta de Klamm, e depois ficaram ali estirados, em meio aos charcos de cerveja e a toda espécie de imundícies de que o pavimento estava coberto. Assim, passaram horas,horas de respiração fundida em um só alento, de um único bater decorações; horas nas quais K. experimentava sem cessar a sensação de extraviar-se ou de encontrar-se já muito distante, tão distante em algum país estrangeiro, como não estivera jamais nenhum homem;uma terra estrangeira na qual nem o ar conserva já partícula alguma do ar natal, na qual tinha alguém de se sufocar e afogar-se com estranheza, e sob cujas tentações absurdas não se podia, contudo,fazer outra coisa a não ser continuar andando e continuar se extraviando…”

KAFKA, Franz. O Castelo. São Paulo: Martin Claret, 2006. p. 62-63
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As dores do mundo

“Assim como um regato corre sem ímpetos, enquanto não encontra obstáculo, do mesmo modo na natureza humana, como na natureza animal, a vida corre inconsciente e descuidosa, quando coisa alguma se lhe opõe à vontade. Se a atenção desperta, é porque a vontade não era livre e se produziu algum choque. Tudo o que se ergue em frente da nossa vontade, tudo o que contraria ou lhe resiste, isto é, tudo que ha de desagradável e de doloroso, sentimô-lo ato contínuo e muito nitidamente. Não atentamos na saúde geral do nosso corpo, mas notamos o ponto ligeiro onde o sapato nos molesta; não apreciamos o conjunto próspero de nossos negócios, e só pensamos numa ninharia insignificante que nos desgosta. – O bem-estar e a felicidade são portanto negativos, só a dor é positiva.”

SCHOPENHAUER, Artur. As Dores do Mundo In: As Dores do Mundo. 3ª Ed. São Paulo: Edigraf, s/d.  p.6-7

“Cada indivíduo,cara rosto humano e cada existência humana são um sonho efémero doespírito infinito da natureza, da vontade de viver persistente eteimosa, não uma imagem fugitiva que desenha na página infinita doespaço e do tempo que deixa subsistir alguns instantes de umarapidez vertiginosa, e que logo apaga para dar lugar a outras.Contudo, e é êsse o lado da vida que faz pensar e refletir, urgeque a vontade de viver, violenta e impetuosa, pague cada uma dessasimagens fugitivas, cada uma dessas fantasias vãs ao preço de doresprofundas e sem número, e de uma morte amarga por muito tempo temidae que afinal chega.”

SCHOPENHAUER, Artur. As Dores do Mundo In: As Dores do Mundo. 3ª Ed. São Paulo: Edigraf, s/d.  p.25

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Metodologia Filosófica

“Moral da história: é preciso multiplicar as dissertações e terminar por entregá-las – sem esticar prazos e sem abusar da paciência do professor -, terminá-las para entregá-las, em vez de passar semanas sobre uma obra-prima em potencial que não entrará no circuito, em nome de uma exigência de qualidade inteiramente deslocada, quando não um tanto louca, proveniente daquele fantasma de perfeição que conduz à má abstração do interminável e ao drama do inacabado. É preciso aprender a terminar uma dissertação, e a correção com nota, afinal de contas, é um término bastante bom.”
FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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Pequeneza

Tenho.
Temo.
Por isso eu finjo,
por isso eu fujo.

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